
{"id":37406,"date":"2026-06-04T13:41:44","date_gmt":"2026-06-04T16:41:44","guid":{"rendered":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/?p=37406"},"modified":"2026-06-04T14:02:56","modified_gmt":"2026-06-04T17:02:56","slug":"as-cadeiras-da-calcada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/as-cadeiras-da-calcada\/","title":{"rendered":"As Cadeiras da Cal\u00e7ada"},"content":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que a vida acontecia do lado de fora da casa.<\/p>\n<p>Ao cair da tarde, as portas se abriam, as cadeiras sa\u00edam para a cal\u00e7ada e os vizinhos iam chegando sem convite, sem hora marcada e sem cerim\u00f4nia. Bastava o frescor da noite come\u00e7ar a aparecer para que as conversas tomassem conta da rua.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as brincavam despreocupadas. Corriam de um lado para o outro, inventavam jogos, andavam de bicicleta e transformavam qualquer peda\u00e7o de ch\u00e3o em cen\u00e1rio para aventuras.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os adultos colocavam a conversa em dia, comentavam as not\u00edcias, trocavam receitas, falavam da vida e, muitas vezes, resolviam os problemas do mundo sem sair da cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Quando penso nesse tempo, por\u00e9m, n\u00e3o me lembro apenas das cadeiras.<\/p>\n<p>Lembro-me dos sons.<\/p>\n<p>Lembro-me dos vendedores que passavam anunciando suas mercadorias. O pipoqueiro, o algod\u00e3o-doce, o quebra-queixo. Cada um tinha seu jeito pr\u00f3prio de chamar a aten\u00e7\u00e3o, e n\u00f3s, crian\u00e7as, aprend\u00edamos a reconhecer de longe aqueles an\u00fancios que pareciam fazer parte da trilha sonora da tarde.<\/p>\n<p>Mas a lembran\u00e7a mais bonita n\u00e3o vem dos vendedores.<\/p>\n<p>Vem da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Vejo a cena com uma clareza que o tempo n\u00e3o conseguiu apagar.<\/p>\n<p>Na porta de casa, eu e meu irm\u00e3o sentados em nossas pequenas cadeiras de crian\u00e7a. Diante de n\u00f3s, um prato simples de arroz com ovo. Minha m\u00e3e, com toda a paci\u00eancia e todo o amor do mundo, alternava as colheradas. Uma para mim. Outra para ele. Mais uma para mim. Mais uma para ele.<\/p>\n<p>Era uma refei\u00e7\u00e3o simples.<\/p>\n<p>Talvez simples demais para os padr\u00f5es de hoje.<\/p>\n<p>Mas, para n\u00f3s, era um banquete de carinho.<\/p>\n<p>Naquele momento n\u00e3o havia pressa, nem distra\u00e7\u00f5es. N\u00e3o existiam celulares, notifica\u00e7\u00f5es ou telas disputando nossa aten\u00e7\u00e3o. Existia apenas a presen\u00e7a. A presen\u00e7a da m\u00e3e, a companhia do irm\u00e3o, o movimento tranquilo da rua e a seguran\u00e7a de saber que o mundo estava exatamente onde deveria estar.<\/p>\n<p>Hoje compreendo que aquelas colheradas alimentavam muito mais do que a fome.<\/p>\n<p>Elas alimentavam a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Naquele tempo ningu\u00e9m falava em v\u00ednculos afetivos, conviv\u00eancia familiar ou constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias. As pessoas simplesmente viviam. E, sem perceber, deixavam gravados em nossos cora\u00e7\u00f5es momentos que sobreviveriam aos anos, \u00e0s mudan\u00e7as e \u00e0s dist\u00e2ncias.<\/p>\n<p>As cadeiras da cal\u00e7ada eram mais do que m\u00f3veis colocados do lado de fora da casa.<\/p>\n<p>Eram pontos de encontro.<\/p>\n<p>Eram espa\u00e7os de conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Eram pequenas pontes entre as pessoas.<\/p>\n<p>Nelas compartilhavam-se alegrias, preocupa\u00e7\u00f5es, receitas, conselhos e hist\u00f3rias. Nelas nasciam amizades, fortaleciam-se la\u00e7os e aprendia-se, sem perceber, o valor da comunidade.<\/p>\n<p>O mundo mudou. As ruas ficaram mais silenciosas. As cadeiras desapareceram de muitas cal\u00e7adas. Hoje conversamos com pessoas que est\u00e3o a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, mas \u00e0s vezes mal conhecemos quem mora ao nosso lado.<\/p>\n<p>Ganhamos muitas facilidades, \u00e9 verdade. Mas algumas cenas ficaram guardadas apenas na lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ainda assim, basta fechar os olhos para que elas retornem.<\/p>\n<p>E eu volto a ser aquela crian\u00e7a sentada na porta de casa. Escuto ao longe o chamado do pipoqueiro. Vejo a rua movimentada pelos vizinhos. Sinto a brisa do fim da tarde. E, diante de mim, minha m\u00e3e dividindo um prato de arroz com ovo entre dois filhos que talvez n\u00e3o soubessem, naquela hora, que estavam vivendo um dos momentos mais preciosos de suas vidas.<\/p>\n<p>Hoje, quando passo por ruas silenciosas e vejo as cal\u00e7adas vazias, percebo que sinto saudade de muito mais do que um tempo. Sinto saudade das pessoas que fizeram aquele tempo existir.<\/p>\n<p>Sinto saudade das vozes, dos risos, dos encontros sem pressa e da simplicidade que preenchia os dias.<\/p>\n<p>E entre todas as lembran\u00e7as que guardo daquelas tardes, nenhuma \u00e9 mais preciosa do que a imagem de minha m\u00e3e, com um prato de arroz com ovo nas m\u00e3os, alimentando dois filhos e, sem saber, alimentando tamb\u00e9m as mem\u00f3rias que os acompanhariam por toda a vida.<\/p>\n<p>Porque h\u00e1 lembran\u00e7as que o tempo n\u00e3o envelhece.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quanto mais os anos passam, mais elas nos alimentam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Duse Leite<\/strong><\/em> <em>\u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que a vida acontecia do lado de fora da casa. 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