
{"id":31827,"date":"2025-08-01T19:53:29","date_gmt":"2025-08-01T22:53:29","guid":{"rendered":"http:\/\/visaodealagoas.com.br\/home\/?p=31827"},"modified":"2025-08-01T19:53:29","modified_gmt":"2025-08-01T22:53:29","slug":"alagoas-celebra-o-primeiro-dia-nacional-do-maracatu-nesta-sexta-feira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/alagoas-celebra-o-primeiro-dia-nacional-do-maracatu-nesta-sexta-feira\/","title":{"rendered":"Alagoas celebra o primeiro Dia Nacional do Maracatu nesta sexta-feira"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"text-black font-18 mt-0 pt-0\">Ap\u00f3s quase um s\u00e9culo de sil\u00eancio desde o Quebra de Xang\u00f4, movimento cultural volta a ocupar as ruas<\/h2>\n<p>Alagoas vive um momento hist\u00f3rico nesta sexta-feira (1), ao celebrar, pela primeira vez, o Dia Nacional do Maracatu, uma conquista que vai muito al\u00e9m do reconhecimento oficial. A data, sancionada pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva em 2024, representa o renascimento de uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural silenciada por quase cem anos ap\u00f3s o epis\u00f3dio do Quebra de Xang\u00f4, em 1912.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria de Estado da Cultura e Economia Criativa, Mellina Freitas, celebrou o reconhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO maracatu \u00e9 um s\u00edmbolo de resist\u00eancia e da riqueza da nossa heran\u00e7a afro-brasileira. Uma linguagem ancestral que resistiu ao apagamento hist\u00f3rico e que agora reencontra seu lugar na paisagem cultural alagoana. Reconhecer e fortalecer essa express\u00e3o \u00e9 um compromisso com a mem\u00f3ria coletiva, com a justi\u00e7a cultural e com a valoriza\u00e7\u00e3o das matrizes africanas que moldam a identidade do nosso povo\u201d, afirmou a secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m refor\u00e7ou a import\u00e2ncia do reconhecimento legal. \u201cA institucionaliza\u00e7\u00e3o dessa data fortalece o compromisso do Estado com a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular e com os artistas que mant\u00eam viva essa tradi\u00e7\u00e3o\u201d, destacou a gestora.<\/p>\n<p><b>A retomada concreta em 2007<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A retomada do maracatu em Alagoas ocorreu em mar\u00e7o\/abril de 2007, quando o percussionista Wilson Santos ministrou uma oficina de maracatu no Centro de Belas Artes de Alagoas (Cenarte), equipamento p\u00fablico mantido pelo Governo de Alagoas e administrado pela Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult). A a\u00e7\u00e3o fazia parte de um ciclo de forma\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o das express\u00f5es afro-brasileiras no estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A resposta do p\u00fablico foi imediata. Participantes da oficina, em sua maioria jovens de comunidades perif\u00e9ricas, artistas independentes e estudantes, decidiram manter os encontros e continuar os estudos musicais. A partir dessa mobiliza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, se formou um n\u00facleo de pr\u00e1tica regular.<\/p>\n<p>Em 21 de abril de 2007, foi fundado oficialmente o Grupo Percussivo Maracatu Baque Alagoano, se tornando o primeiro grupo do g\u00eanero criado em Alagoas ap\u00f3s quase um s\u00e9culo de invisibilidade. O grupo se tornou s\u00edmbolo da reconex\u00e3o cultural com tradi\u00e7\u00f5es negras apagadas historicamente e catalisador de novos grupos, oficinas e a\u00e7\u00f5es culturais voltadas \u00e0 cultura popular afro-brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje, pelo menos dez grupos est\u00e3o ativos em Alagoas, como o Y\u00e1 Dandara, primeiro exclusivamente feminino, e o coletivo Sankofa, que mistura maracatu com outras sonoridades afro-brasileiras e express\u00f5es da cultura popular local, com base no bairro do Vergel do Lago, em Macei\u00f3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO dia de hoje \u00e9 emblem\u00e1tico, pois mais que o som dos tambores, a data reverencia um marco hist\u00f3rico de resist\u00eancia e de renascimento cultural. Antes do Quebra, o maracatu era express\u00e3o viva das comunidades perif\u00e9ricas e dos terreiros de Xang\u00f4, entrela\u00e7ado \u00e0 religiosidade afro-brasileira e \u00e0 identidade negra. E isso nos foi calado. Ent\u00e3o, hoje celebramos a retomada da mem\u00f3ria, da dignidade e da ancestralidade\u201d, afirma Wilson Santos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cCelebrar o Dia Nacional do Maracatu em Alagoas \u00e9 mais que uma festa, \u00e9 um ato de resist\u00eancia e de cura coletiva. Depois de quase um s\u00e9culo de sil\u00eancio imposto pelo Quebra de Xang\u00f4, ver os tambores ecoando novamente pelas ruas de Jaragu\u00e1 \u00e9 como ouvir a ancestralidade gritar que ainda estamos aqui, falou a mestre do Maracatu Y\u00e0 Dandara, Dani Lins.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO Maracatu Feminino Y\u00e1 Dandara nasceu desse renascimento, como um espa\u00e7o onde as mulheres n\u00e3o apenas tocam, mas lideram, criam e transformam. Cada baque \u00e9 um chamado \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 dignidade e \u00e0 for\u00e7a das mulheres negras que sustentam essa tradi\u00e7\u00e3o com corpo, alma e coragem. Hoje, o maracatu em Alagoas tamb\u00e9m \u00e9 feminino, \u00e9 plural, \u00e9 vivo, e \u00e9 nosso\u201d, destaca Dani Lins.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ra\u00edzes hist\u00f3ricas em Alagoas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora o maracatu seja comumente associado a Pernambuco, onde surgiu formalmente no s\u00e9culo XVIII, a tradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem ra\u00edzes documentadas em Alagoas, que compartilhou essa tradi\u00e7\u00e3o durante o per\u00edodo em que os dois estados fizeram parte da mesma capitania.<\/p>\n<p>Desde o per\u00edodo colonial, h\u00e1 registros da manifesta\u00e7\u00e3o no estado, tanto no carnaval de rua quanto nos terreiros de Xang\u00f4.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A continuidade dessas express\u00f5es culturais, no entanto, foi violentamente interrompida com o Quebra de Xang\u00f4, em 1\u00ba de fevereiro de 1912. O epis\u00f3dio marcou uma ruptura dr\u00e1stica na presen\u00e7a p\u00fablica das religi\u00f5es de matriz africana em Alagoas, como tamb\u00e9m desarticulou pr\u00e1ticas art\u00edsticas e espirituais a elas vinculadas \u2014 entre elas, o maracatu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo o Consultor Art\u00edstico e Cultural do Maracatu Baque Alagoano, Kiko Cavalcanti, a celebra\u00e7\u00e3o do primeiro Dia Nacional do Maracatu representa um marco profundamente simb\u00f3lico e cultural para o estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cUm estado que, embora historicamente tenha sido um importante territ\u00f3rio de express\u00e3o dos maracatus na regi\u00e3o Nordeste, viu-se silenciado por d\u00e9cadas em fun\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias e apagamentos promovidos pelo racismo religioso e institucional\u201d, disse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Kiko relembra que, antes do Quebra de Xang\u00f4, Alagoas j\u00e1 era ber\u00e7o de grupos tradicionais como Cambinda do Porto e Cambinda Velha. \u201cEssas manifesta\u00e7\u00f5es estavam diretamente ligadas \u00e0s casas de matriz africana e aos territ\u00f3rios sagrados do povo de santo. No entanto, com a brutal repress\u00e3o empreendida por autoridades e setores conservadores da sociedade \u00e0 \u00e9poca, in\u00fameras casas foram invadidas, destru\u00eddas e seus l\u00edderes perseguidos\u201d, destacou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEsse ataque sistem\u00e1tico n\u00e3o apenas interrompeu os cultos afro-brasileiros, como tamb\u00e9m comprometeu a continuidade de express\u00f5es culturais associadas a essas tradi\u00e7\u00f5es, como o pr\u00f3prio maracatu\u201d, completou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar da repress\u00e3o, a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o desapareceu completamente. De acordo com Kiko, houve um segundo momento de resist\u00eancia e mem\u00f3ria entre as d\u00e9cadas de 1950 e 1960, conforme registrado pelo historiador Th\u00e9o Brand\u00e3o. \u201cSuas pesquisas apontam a exist\u00eancia de pr\u00e1ticas e celebra\u00e7\u00f5es que, embora mais discretas e fragmentadas, mantinham vivo o elo com o passado ancestral do maracatu em Alagoas. Esse per\u00edodo funcionou como um elo de mem\u00f3ria, ainda que fragilizado, entre os tempos de proibi\u00e7\u00e3o e a retomada recente\u201d, falou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O terceiro e atual ciclo de revaloriza\u00e7\u00e3o do maracatu no estado teve in\u00edcio em 2007, com a oficina ministrada pelo percussionista Wilson Santos e que culminou na cria\u00e7\u00e3o do Maracatu Baque Alagoano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cDesde ent\u00e3o, essa iniciativa tem sido fundamental na reconstru\u00e7\u00e3o do maracatu como express\u00e3o viva da cultura popular alagoana. O Baque Alagoano tem promovido oficinas, apresenta\u00e7\u00f5es, interc\u00e2mbios e festivais que n\u00e3o apenas disseminam o ritmo e a est\u00e9tica do maracatu de baque virado, mas tamb\u00e9m fortalecem a identidade negra, a mem\u00f3ria ancestral e o respeito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es afro-brasileiras\u201d, refor\u00e7ou Kiko.<\/p>\n<p>O Baque Alagoano se consolidou como parte de um movimento pol\u00edtico-cultural de reexist\u00eancia. Sua trajet\u00f3ria, marcada por a\u00e7\u00f5es formativas, parcerias e articula\u00e7\u00f5es com outros coletivos, contribuiu para o surgimento de novos grupos e pr\u00e1ticas em diversas comunidades alagoanas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cPor isso, o reconhecimento nacional do maracatu como patrim\u00f4nio imaterial, celebrado agora em uma data oficial, tem um peso hist\u00f3rico inestim\u00e1vel para quem esteve envolvido desde o in\u00edcio da retomada em Alagoas. Trata-se de uma repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, uma vit\u00f3ria da mem\u00f3ria sobre o esquecimento, da resist\u00eancia sobre o silenciamento, da cultura viva sobre os escombros da intoler\u00e2ncia. Celebrar o Dia Nacional do Maracatu, para n\u00f3s, \u00e9 celebrar a vida que insiste, o tambor que n\u00e3o se cala, a for\u00e7a ancestral que se reinventa e, sobretudo, afirmar que Alagoas nunca deixou de ser terra de maracatu\u201d, finalizou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO maracatu ressurgiu no estado, definitivamente, como s\u00edmbolo da for\u00e7a ancestral do povo alagoano. Esse patrim\u00f4nio cultural brasileiro est\u00e1 nas ruas, hoje, como express\u00e3o de resist\u00eancia, arte e espiritualidade, reafirmando o papel da cultura popular como instrumento de transforma\u00e7\u00e3o social\u201d, conclui Wilson.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E hoje, os tambores batem mais alto, para serem ouvidos por quem nunca p\u00f4de escutar.<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Alagoas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s quase um s\u00e9culo de sil\u00eancio desde o Quebra de Xang\u00f4, movimento cultural volta a ocupar as ruas Alagoas vive um momento hist\u00f3rico nesta sexta-feira (1), ao celebrar, pela primeira vez, o Dia Nacional do Maracatu, uma conquista que vai muito al\u00e9m do reconhecimento oficial. 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